Os mistérios

Homens divinos que trazem a salvação

As chaves do inferno e  a garantia de salvação estavam nas mãos da deusa. A cerimônia de iniciação era um tipo de morte voluntária e a salvação ocorria pela graça divina.

Descrição da iniciação aos mistérios de Ísis.

Apuleio, Metamorphosis. Capítulo 11

Os mistérios … nos redimem das dores do inferno, mas se nós os neglicenciarmos ninguém sabe o que nos espera.

Platão, A República, Livro 2.7, (Quarto século antes de cristo)

Estamos falando das ideias que permeavam a cultura na qual o cristianismo surgiu. Vimos que os blocos fundamentais da religião antiga são familiares: seres divinos invisíveis com quem podemos conversar, persuadir e pedir ajuda e foco em ética e moral.

Mas até então parece que os antigos juntaram esses blocos de forma diferente do cristianismo (embora não seja diferente do judaísmo e seus templos e sacrifícios). A religião cívica tinha muito a ver com o controle do mundo através da barganha com seres divinos. Filosofia tratava de ética e moral (entre outras coisas) mas não tinha revelação divina e nem focava em salvação pessoal*.

*Falando claramente: a filosofia e os mitos incluíam várias ideias acerca da vida após a morte.

Uma terceira parte da religião antiga, as religiões misteriosas, focava a vida após a morte. Essas religiões adotavam a adoração de um homem divino (ou uma mulher divina) que falava e caminhava e que dava a seus fiéis uma vida após a morte melhor – salvação.

Deuses salvadores

Eu sei que é difícil acreditar que os deuses antigos eram salvadores, então comecemos com um pouco de Platão, que escreveu no século IV AC. Veremos uma religião misteriosa mais tarde.

Platão descreve os “mistérios”, os quais ele diz que nos redimem das dores do inferno.

Produziram uma grande quantidade de livros escritos por Mousaios (também conhecido como Moses) e Orpheu, … de acordo com tais livros eles faziam rituais, e persuadiam não apenas indivíduos, mas também cidades inteiras, a fazer expiações pelos pecados através de sacrifícios e agrados que duram cerca de uma hora livre, e que servem igualmente aos vivos e aos mortos, a algumas dessas expiações eles se referiam da seguinte forma:  mistérios que nos redimem das dores do inferno, os quais, se neglicenciados por nós, ninguém sabe o que nos espera.

Platão, A República, Livro 2.7, (Quarto século antes de cristo)

Citação antiga

E sem os tais mistérios, ninguém sabe o que acontecerá após a morte.

Os mistérios eram religiões que salvavam seus fiés do inferno, e lhes davam vida eterna, ou melhor dizendo, uma oportunidade melhor no que quer que a eternidade reservasse – assim como Jesus. Platão, no século  IV antes de cristo, disse assim.

Plutarco, no segundo século DC, diz o mesmo. Vejamos.

A salvação de Osíris

Osíris era um dos grandes deuses egípcios. Já no segundo milênio antes de cristo os egípcios acreditavam que ele julgava a bondade dos mortos. Se você vivesse a tua vida com bondade você passaria a eternidade no paraíso egípcio com Osíris. Se vivesses como uma pessoa má você acabaria morto.

Plutarco, aquele que escreveu o próxmo trecho, foi sacerdote do templo de Apolo em Delfos, Grécia, por 30 anos. Ele era sacerdote de Apolo, mas também adora Osíris. Se voce acompanha atentamente essa série, então não ficará surpreso com o serviço duplo dele.

De qualquer forma, nessa época Ísis e Osíris estavam na Grécia há mais de 400 anos, portanto é bem possível que Plutarco fosse um iniciado de seus mistérios. Ele era religioso, um fiel. Ele viajou ao Egito e descreveu a adoração de Ísis e Osíris lá e a teologia por trás disso. Agora respire fundo. Suas idéias acerca de Deus e religião estão prestes a mudar.

Plutarco, que era bom escritor, não tinha palavras para descrever quão boa a adoração de Ísis era, então usou alguns superlativos – “puro”, “brilha através da alma”, coisas assim.

A percepção do que é conceitual, puro, simples e que brilha através da alma como um relâmpago, dá a oportunidade de tocar e ver por uma vez. Por esta razão Platão e Aristóteles chamam essa parte da filosofia de mística, pois aqueles que foram além das conjecturas e questões confusas de todos os tipos criadas pela “Razão” (logos) procedem em grandes passos para o princípio primário, simples e imaterial, e quando eles de alguma forma entram em contato com a pura verdade desse princípio, eles pensam que têm a filosofia completa, como se ela estivesse ao seu alcance.

… este deus Osíris … está distante da terra, não contaminado, não poluído e puro de toda matéria que é sujeita à destruição e morte, mas para as almas dos homens aqui, que estão envolvidas em corpos e emoções, não há associação com esse deus a não ser uma obscura visão de sua presença através da percepção que a filosofia traz.

Mas quando essas almas são libertas e migram para o reino do invisível que nunca visto, que é imparcial e puro, então esse deus se torna seu líder e rei, já que é dele que eles dependem em sua contemplação insaciável e desejo de beleza incalcançável e indescritível pelos homens. Com essa beleza Ísis, como declara a estória antiga, está para sempre enamorada pela terra, perseguindo-a e unindo-se à ela, enchendo-a com todas as coisa justas e boas que favorecem as gerações.

Plutarco, Ísis e Osíris, 382.D – 383.A (Primeiro ou segundo século depois de cristo), – Você pode encontrar essa obra em: Babbitt, Frank. Plutarch Moralia, volume 5 (1936/ 1999), pg. 181- 5

Citação antiga

Para nossa sorte Plutarco não parou por aqui. Ele prosseguiu e explicou que a teologia da adoração de Ísis era uma união mística com a “Razão” imaterial e eterna. A palavra grega para “Razão” era “logos”. A mesma palavra e a mesma ideia de um ser divino eterno que você encontra no evangelho de João. “No princípio era a palavra(logos), … e a palavra(logos) era Deus.

A deusa dos sacerdotes de Ísis não era apenas uma deusa mágica (pelo menos não era apenas isso), ela era essa coisa eterna, imaterial, simples, brilhante, pura e espiritual. O tipo de coisa divina elevada para a qual falta palavras para descrever.

De acordo com Plutarco, que sabia pois ele estava lá, a adoração de Ísis e Osíris não dizia respeito a fábulas mágicas mas sim a uma união mística das almas humanas aspirantes por um deus trascendente e eterno.

Inacreditável.

Diz Plutarco: Enquanto estamos vivos ansiamos por união com deus.

Mas enquanto vivemos não podemios apreciar a bondade de deus. O melhor que podemos fazer é ter uma visão obscura da grandeza de sua bondade através da filosofia(Plutarco era um “nerd” rico).

Depois de nossa morte nossas almas deixam nossos corpos e viajam para estar com deus, onde tua lama passará a aeternidade contemplando a beleza inexeprimível e indescritível de deus.

Parece familiar ? Acho que sim.

Nossas almas são divinas e anseiam pela união com deus. Após nossa morte viajamos para o paraíso e passamos a eternidade contemplando a glória inexprimível e indescritível de deus. Isso é religião antiga ? Sim. É religião misteriosa antiga. Quem poderia imaginar ?

Religiões misteriosas

Relgiões misteriosas parecem religião de verdade. Elas têm ética e moral, além de associação pessoal com um deus ou deusa que viveu na Terra. O homem divino ofereceu uma proposta melhor para a vida eterna após a morte – mas não para todos, só para os fiéis que se uniram à sua fé numa cerimônica especial iniciática como aquela que Apuleio descreve como “um tipo de morte voluntária e salvação pela graça divina”*.

*Apuleio, Metamorphosis. Capítulo 11

Quantidade

Não havia apenas uma reliigão misteriosa, mas muitas. Ísis tinha seus mistérios assim como Dionísio e os deuses sem nome de Samotrácia. Muitos deuses que eram adorados publicamente na religião cívica regular também tinham seus mistérios.

Segredos

Os mistérios são  muito parecidos com o cristianismo. De fato, os próprios primeiros cristãos disseram que o cristianismo era um mistério. As profundas semelhanças são parte da razão por trás da popularidade das teorias do início do século XX que dizem que Jesus é uma cópia de outros mitos. Mas há um problema. Vejamos novamente aquele escrito de Plutarco…

A bondade pura, simples e brilhante de deus era tão boa e especial que poderia ser experimentada apenas uma vez na vida (durante a cerimônica de iniciação).

A percepção do que é conceitual, puro e simples e que brilha através da alma como um relâmpago, dá a oportunidade de tocar e ver por uma vez.

Plutarco, Ísis e Osíris, 382.D – 383.A (primeiro ou segundo século depois de cristo), – você pode encontrálo em: Babbitt, Frank. Plutarch Moralia, volume 5 (1936/ 1999), pg. 181- 5

E sendo tão especial ela não poderia ser revelada a pessoas de fora do grupo.

Na história das religiões mundiais esse pequeno fato tem grande importância.

A teologia dos mistérios era um segredo sagrado. Ninguém podia escrever ou disitribuir manuais das práticas dos mistérios e sua teologia. Nenhum historiador ou biógrafo podia descrever qualquer detalhe acerca do assunto. E era sério. Escritores antigos mencionam muito os mistérios, mas com uma exceção, qual seja, que sempre se evite revelar segredos sagrados. Como vimos eles ocasionalmente deixam implícito, ou dizem abertamente, que os mistérios trazem salvação, mas os rituais básicos e teologias das religiões misteriosas antigas se foram. Essas informações estão perdidas.

Isso impossibilita a comparação do cristianismo e seus rituais e teologia com as religiões misteriosas antigas. O cristianismo parece um  mistério ? Sim. Os primeiros cristãos se referiam ao cristianismo como mistério ? Sim. Podemos provar que as teologias e rituais são semelhantes ? Não, não podemos. Isso é muito tantalizante.

Fonte: http://www.pocm.info/getting_started_mystery_religions.html

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